Eles têm visão de raio X – Pequenas Empresas e Grandes Negócios

A NeuroTech criou um produto inovador, que traçava o perfil de clientes e dizia se eles eram dignos de crédito. Difícil foi divulgar a novidade.

Por Viviane Maia
Fotos Fabiano Accorsi

Imagine a cena, ocorrida onze anos atrás: uma porção de executivos da rede de supermercados Bompreço assiste a uma apresentação sobre redes neurais e inteligência artificial numa das salas do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), instituto de inovação sem fins lucrativos. Quem discursa sobre a tal inteligência artificial é o professor Germano Vasconcelos, doutor em redes neurais pela Universidade de Kent, na Inglaterra. Vasconcelos explica que a tecnologia permite ao computador simular o funcionamento do cérebro humano, cruzando informações variadas contidas em bancos de dados de forma a concluir algo. Lá pelas tantas, para facilitar o entendimento da teoria, ele cita um exemplo de como a inteligência artificial pode ser útil a um supermercado: com um sistema  assim, dá para saber se um consumidor é bom ou mau pagador e , por tanto, se ele pode ou não receber crédito. “Aquilo gerou um frisson na sala”, diz o professor, ao relatar o episódio. “Todos queriam saber se poderíamos criar um software com essa função.” Naquele instante, ele se deu conta de que estava diante de uma oportunidade de negócio, e que, se a questão afligia um supermercado, também poderia ser a preocupação de muitas outras empresas.

Foi a partir dessa demanda que Vasconcelos e os colegas de universidade Paulo Adeodato, também doutor em redes neurais, e Domingos Monteiro, mestre em inteligência artificial, montaram a NeuroTech, empresa especializada no desenvolvimento de softwares de concessão e gestões de crédito. Hoje, acumulando mais de uma década de estrada, a empresa pernambucana contabiliza a implementação de 50 soluções em grandes companhias e conta com mais de 25 clientes, como Lojas Renner, Leader Magazine, Banco Nordeste e Oi Paggo, entre outros. Em 2007, a empresa faturou R$3,5 milhões e prevê um crescimento de cerca de 20% em 2008.

Com a demanda e a idéia em mãos, os acadêmicos resolveram ser cautelosos em relação ao investimento. Eles se uniram ao Cesar, que também funciona como uma incubadora de negócios e estimula o surgimento de novas empresas a partir de uma solicitação de produtos ou serviços de grandes companhias. “Em troca de infra-estrutura, a instituição tornou-se sócia da NeuroTech”, afirma Monteiro, diretor-executivo. Com isso, segundo ele, o Cesar passou a deter 13% de participação societária do empreendimento.

O primeiro projeto da empresa era desenvolver um programa que fizesse a análise de risco na concessão de crédito aos clientes Hiper-card, cartão de crédito de bandeira do grupo Bompreço. O estudo, feito com aplicação prática, constatou um aumento sensível na aprovação de cadastros de novos clientes, sem crescer a taxa de inadimplência, que já era abaixo da média do mercado. O resultado do projeto convenceu os gestores da empresa que acompanharam o processo. Porém, nenhum dos sócios da NeuroTech contava com o imprevisto: de uma hora para outra, o grupo Bompreço decidiu trocar os executivos da gerência, responsáveis pela tomada de decisão sobre a utilização da tecnologia, o que resultou no engavetamento do projeto. “Em um dia tínhamos um grande cliente; no outro ele não existia mais”, afirma Monteiro.

Nem por isso os sócios desanimaram. O fato de ser uma pequena empresa e de ter um software com uma tecnologia nova, pouco difundida, exigia um trabalho árduo de divulgação. Era difícil convencer os executivos de empresas da área de varejo, financeiras e até o governo de que valia a pena marcar uma horinha para recebê-los. O trio bateu em várias portas até conseguir apresentar o software para os executivos de cartões do grupo paraense Líder. Vasconcelos afirma que, durante a palestra, os sócios explicaram que era possível traçar um perfil do bom pagador e ter o veredicto em percentuais das taxas de risco que um determinado candidato representava. “Mostramos a probabilidade de um cliente pagar ou não as faturas”, diz. A explicação foi convincente para fechar o primeiro contrato e faturar R$60.000 em 2000.

Para Descartes de Souza Teixeira, diretor do Instituto de Tecnologia de Software (ITS), o diferencial da NeuroTech está no uso de uma tecnologia como a inteligência artificial juntamente com a estatística no software de análise e gestão de crédito. “Eles misturam finanças com tecnologia e conseguem ter uma avaliação do cliente baseados no comportamento de compra ou de pagamento por exemplo”, afirma o diretor. “Isso traz mais segurança para a informação das empresas.”

Com alguns contratos fechados aqui e ali e outros ainda em espera, Monteiro diz que todos acreditavam que aquele era o momento de enveredar pelo mercado dos bancos. Parecia uma decisão lógica, já que o software Neuralscorer fazia o que interessava aos bancos: ampliar o acesso ao crédito e reduzir a inadimplência. Mas nem sempre a realidade é tão simples assim. Naquele momento, nenhum banco sediado em São Paulo se interessou. “Éramos uma pequena empresa pernambucana, nova e com um produto diferente. Nem sempre a inovação é aceita rapidamente”, diz o sócio Adeodato, hoje responsável por fazer a ponte entre as novas tecnologias desenvolvidas pela academia e sua aplicação no mercado.

Foi justamente essa capacidade de inovação que aproximou a NeuroTech da empresa Leader Magazine, loja de departamentos nascidas no interior do estado do Rio de Janeiro, que conta atualmente com 28 unidades e administra cerca de 2,5 milhões de cartões de marca própria. Eles se tornaram clientes em 2002 e hoje usam mais três produtos da família Neuralscorer: o Fraudedetector, que identifica furto, perda e clonagem de cartões de crédito; o Neuralcolector, que proporciona a automação das estratégias de cobrança; o Neuralbehavior, versão mais completa do Scorer, que analisa, além do comportamento dos futuros clientes, os atuais que estão ativos na carteira. “Os softwares trouxeram mais agilidade, rentabilidade e transparência para a empresa “, afirma Gisele Antunes, diretora da Leader Magazine. “Conseguimos melhorar a taxa de aprovação de crédito em 38%, um crescimento bem interessante. ”

Empresa 2.0

A NeuroTech também tropeçou no sistema de formação do preço. No começo, comercializava o software a partir da licença, cobrando R$80.000 por ela, sem limite de usuários, e mais R$2.500 por mês para o contrato de manutenção, que incluía a atualização das versões. Esse modelo de cobrança, até então praxe no mercado de software, foi usado no final de 2002, ano em que a empresa faturou R$250.000. Então, naquele ano, segundo Monteiro, durante a discussão de planejamento estratégico para 2003, caiu a ficha: “Se tudo o que estava programado desse certo com aquele modelo de remuneração, os sócios teriam problemas para cobrir os custos relativos à manutenção dos clientes e o lucro seria quase nada”, diz.

O jeito foi pensar em uma nova forma de fixar valores pelos softwares e serviços prestados. A empresa, que já acumulava 14 clientes, decidiu que a remuneração da NeuroTech estaria atrelada aos ganhos proporcionados aos clientes com o uso dos softwares.Monteiro explica que o sistema gera um relatório que estima quanto a empresa deve ganhar em decorrência da diminuição da inadimplência, caso utilize o software da NeuroTech. “Passamos a pedir uma porcentagem em cima desse ganho”, diz ele. Em 2004, com o novo modelo de remuneração adotado, veio o primeiro contrato com a empresa Telecheque.

Desde então, o crescimento tem sido consistente. Há dois anos os estagiários Adrian Arnaud, doutor em inteligência artificial, e Rodrigo Cunha, mestre nessa área, saíram do time de 35 funcionários e se tornaram sócios. Arnaud é responsável pela área de desenvolvimento de softwares, enquanto Cunha cuida do pós-venda e da implantação do produto nas dependências do cliente. “Tivemos a NeuroTech 1.0, que operava com venda de licenças e manutenção. A NeuroTech 2.0 atua através de participação nos resultados. Nossa idéia é transformá-la em 3.0, adaptando nossa estrutura e nossa tecnologia para atender os pequenos varejistas”, afirma Cunha. “E, para isso, haja trabalho!”